sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Comboios Velhos
Texto escrito em Abril de 2009
Na estação de comboios onde haviam comboios, haviam comboios e um rapaz.
A estação era velha mas o rapaz era novo e não gostava de comboios porque lhe pareciam uma coisa velha. Os comboios eram velhos e eram indiferentes ao rapaz novo, porque eram comboios e os comboios não foram feitos para tecer opiniões sobre os passageiros, novos ou velhos. Já o rapaz fora feito para tecer opiniões sobre tudo, porque era novo e porque era humano, e os humanos tecem opiniões sobre tudo, mesmo comboios velhos numa estação velha que lhe podia ser útil. A estação era útil porque tinha comboios e os comboios transportam pessoas novas e velhas, úteis e inúteis. Levam e trazem. Ás vezes levam e não trazem porque as pessoas voltam em transportes novos, como os aviões, que também não tecem opiniões sobre quem transportam mas são novos. Mesmo assim, o rapaz novo não gosta de aviões porque é essa a sua opinião e ele é humano e os humanos gostam e desgostam das coisas mesmo sem fundamento. Se o rapaz novo gostasse desses transportes novos como os aviões não estaria naquela estação velha onde haviam comboios velhos que já eram velhos à muito tempo, para percorrer um caminho velho que ligava uma cidade velha a outra ainda mais velha. Ele era novo e ia viajar em algo velho para conhecer algo novo, uma cidade e pessoas novas, úteis e inúteis, que gostavam e desgostavam de comboios e aviões. Era toda uma vida nova graças aos comboios velhos que estavam na estação velha que ficava na cidade velha. E tudo o que ele desejava agora era só voltar a ver aquela terra velha quando já fosse velho.
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Paulo Montenegro,
Prosa
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