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domingo, 22 de novembro de 2009

"Tantos pintores" de Mário Cesariny





A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.
Titânia e a cidade queimada


Foto: http://complejo.deviantart.com/

sábado, 21 de novembro de 2009

Pastelaria de Mário Cesariny


 



Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura


Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio


Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante


Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício


Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola


Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come


Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!


Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo


No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


foto: http://little-miss-blogger.deviantart.com/

domingo, 15 de novembro de 2009

Quando eu te perdi.



Para Tânia

Quando eu te perdi, tu e eu perdemos.
Eu, porque tu eras quem eu mais amava.
Tu, porque eu era o que mais te amava.
Mas de nós dois tu perdeste mais que eu.
Porque eu poderei amar outras como te amei a ti
Mas a ti não te amarão como te amei eu.

(Susana Mara, Adaptado)
a)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Reino de Meliantes




Escrito numa aula de Filosofia.
 
Os portões do meu castelo
são guardados por gigantes.
Do soldo que recebem — nem vê-lo!
Dos meus esforços irrelevantes,
nasceu a sua lealdade que é o selo
do meu Reino de Meliantes,
que já eram meus amigos d'antes.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um dia depois.




Recordando a humilhante declaração.

Para Tânia

É quarta-feira e saio à rua,
de manhã ainda cedo.
Levo comigo um coração partido
vazio de sangue e cheio de medo.

Era terça-feira quando saí
levando o coração na mão.
Fui para a estação. Esperar por ti
ouvir algo que não era nem sim nem não.

A minha alma desprovida de cor
enterrada em buraco profundo.
O meu corpo encerra a dor
de ser o rapaz mais infeliz do mundo!

É a quarta-feira dos vencidos
e eu não sou mais que invisível,
vagueando por caminhos perdidos
culpando-me do que era previsível.

Pensei em tudo e tudo perdi.
De um gesto apressado eu
declarei o que sentia por ti,
perdendo o que nunca foi meu.

Há noite escura no meu coração sem alma.
Terra queimada. Floresta doente.
E no ramo mais alto espera com calma
um Esquilo que não desiste facilmente...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Neste Reino



Neste Reino só há solidão.

As pessoas procuram-se, condenadas a desencontrar-se.
As pessoas não falam porque têm medo e buscam quem fale por elas a quem não as quer ouvir.
As pessoas têm egos profundos, orgulhos altivos.
As pessoas pensam que o que as torna pessoas é trabalhar para outras pessoas e agradar outras pessoas, ganhar dinheiro para comprar coisas que as deixam ainda mais bem vistas aos olhos das pessoas que por sua vez querem ficar ainda mais bem vistas aos olhos de ainda mais pessoas, quando tudo o que essas pessoas precisavam era de uma caneca de chocolate quente, uma boa noite de sono e de um beijo de bom dia de uma, só, e única, pessoa!

Nesse Reino não há beijos de bom dia. Nem de boa noite. O afecto não existe. O carinho é fraqueza.
Desse reino só há uma chave. Partida em duas.


Neste Reino,

Portas fechadas indefinidamente.
Vazio consciente de atenção.
Excesso inconsciente de emoção.
Prescrição do destino para ser infeliz.
Receita genérica da mesma dose de solidão
Igualdade de sofrimento para todos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Suster a Respiração




Para Tânia

Sinto-me em stand-by, quanto estou perto de ti.
Como se esperasse algo. Como se temesse algo.
À espera que o mundo desabe a meus pés.
À espera do próximo comentário, da próxima gargalhada.
À espera que alguém estrague tudo.

Sinto-me fora de mim, quando estou contigo.
Como se eu já não fosse eu. Como se não quisesse continuar a ser.
A tentar não ficar quieto a olhar para o teu rosto.
A tentar parecer descontraído, parecer distraído.
A tentar conter-me para não te lançar um abraço,

pegar em ti e misturar-me contigo feito onda que rebenta na praia,
areia com espuma,
braços com costas,
braços com braços,
abraços com abraços
apertados, apertados,
para nunca mais te largar.

domingo, 25 de outubro de 2009

Neste Momento



Para Tânia
(Dois dias antes da declaração.)

Neste momento,
Queria dar-te um beijo.
Neste momento,
Queria dar-te um beijo de boa noite.
Neste momento,
Queria despedir-me de ti com um beijo.
Neste momento,
Queria despedir-me de ti com um beijo de boa noite.
Neste momento,
Queria que soubesses,
Neste momento,
Queria que soubesses que me queria despedir de ti com um beijo de boa noite.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Esta Noite



Inverno de 2007/2008
Poema para Flávia Vieira.


Esta noite procurei-te e não te encontrei;
onde estavas quando desliguei a luz?

queria ter visto o brilho dos teus olhos antes de fechar os meus,
desejar boa-noite como quem pede desculpa
dar a mão por entre um beijo demorado,
e naquele vazio preenchido por coisa nenhuma
queria sentir-te adormecer ao meu lado.

Esta manhã procurei-te e não te vi;
onde estavas quando o sol nasceu?

queria ter olhado o teu rosto e morde-lo ao de leve;
abraçar o teu corpo fundindo-o no meu,
reafirmar que ainda sou teu,
apertar-te desajeitadamente como não se deve,
dizer-te ao ouvido como és bela,
lembrar-te que o primeiro a beijar não fui eu
e dar um beijo mal dado nos teus lábios maçã-canela;
agradecer-te por me fazeres sentir como nunca senti,
pouco me importando das vezes em que és neve,
saboreando cada lembrança em que foste chantilly,

mas peço desculpa se ocupo o teu tempo,
ou se alguma vez atenção a mais te pedi,
perdoa-me por te pesar no relógio
mas todos os dias são tristes sem ti.